Intercâmbio acadêmico cultural e trabalho voluntário levam brasileiros a países exóticos

Histórias de pessoas que desafiaram a lógica e foram morar em países pouco procurados nas agências de intercâmbio

Quando pensamos em viajar para o exterior, seja para tirar férias ou fazer um intercâmbio acadêmico cultural, o senso comum nos leva a escolher as grandes metrópoles da América do Norte e Europa. De acordo com pesquisa da associação Belta (Brazilian Educational & Language Travel Association), os destinos mais procurados são: Canadá (1º), Estados Unidos (2º) e Reino Unido (3º). Só em 2015, 324 mil turistas brasileiros visitaram as terras inglesas, segundo Visit Britain, órgão oficial de turismo do governo britânico. Entretanto, o que poucas pessoas sabem, talvez por falta de informação ou pelo custo financeiro, é que existe uma infinidade de programas acessíveis que oportunizam e facilitam diferentes tipos de intercâmbio.

É o caso da jornalista de 41 anos, Neusa Santos, sócia na empresa Ampliare Comunicação S.A. Ela viajou para a Finlândia em 2002, durante 30 dias, após ser selecionada pela Rotary Internacional para participar do Group Student Exchange (GSE), um programa anual de intercâmbio oferecido para jovens profissionais. Segundo a jornalista, o programa é que decide anualmente qual país os estudantes terão a oportunidade de conhecer. “Achei muito interessante por ser um país completamente diferente do Brasil e um destino que, provavelmente, não escolheria em uma viagem de férias ou de estudos devido à distância e aos custos elevados”, explica.

No país, Neusa pôde aperfeiçoar seu inglês, que era o idioma utilizado para se comunicar. Segundo a jornalista, o finlandês é uma língua extremamente difícil e, claro, muito diferente do português. Além disso, o projeto GSE possibilitou que ela conhecesse de perto sua área de atuação em outro país. “Lá tive a oportunidade de conferir como as emissoras de rádio e televisão trabalham e como são as redações dos principais jornais. Também pude conhecer as tendências para produtos eletrônicos, naquela época a Nokia era a maior fabricante de celulares do mundo, com sede e origem na Finlândia”, ressalta a jornalista.

De acordo com o ranking da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Finlândia é o sexto país em excelência de ensino e também possui status de alto nível em qualidade de vida. Para alguns, o lugar é ideal para construir uma carreira profissional e pessoal. No entanto, outros aspectos podem influenciar na hora de permanecer ou não no país, muito mais que a educação e a economia. Para Neusa, as diferenças culturais e climáticas muito atípicas em relação ao nosso país de origem não a convenceram em residir na Finlândia. “Apesar de admirar a tranquilidade, a segurança das cidades, a paisagem rica em lagos e neves, o país tem praticamente seis meses de inverno rigoroso e com temperaturas que chegam a -50º C”, destaca a jornalista, que já havia casado no Brasil e também já estava inserida no mercado de trabalho. Contudo, se fosse fazer um intercâmbio nos dias de hoje, Neusa optaria pela Austrália. “O país tem clima semelhante ao do Brasil, com belas praias e, pelo que já ouvi falar, oferece ótimas oportunidades de trabalho/remuneração e de aprendizado”, destaca.

Jornalista Neusa Santos em visita à redação do Jornal Pyhajokiseutu. Crédito: Arquivo Pessoal.

Já o estudante do sexto período do curso de jornalismo da Unisinos, Marco Prass, de 24 anos, que viajou entre junho e julho de 2015 para a Coréia do Sul, afirma que não pensaria duas vezes se tivesse a chance de estudar novamente no país coreano. “Antes mesmo de ingressar na universidade, eu já desejava participar de um programa de intercâmbio. Sempre tive a convicção de que se trata de uma experiência enriquecedora e uma oportunidade única de aprendizado, tanto no exercício de uma língua estrangeira, quanto em conviver com pessoas de uma cultura diferente”, salienta.

A oportunidade de conhecer a Coréia do Sul surgiu para Prass quando abriram as inscrições do SKKU ISS 2015, programa de estudos de verão na Sungkyunkwan University, universidade sul-coreana parceira da Unisinos. Ao todo, foram concedidas 10 bolsas para os estudantes da Unisinos, e ele foi um dos selecionados. “De início, relutei um pouco em me inscrever, mas uma amiga que já havia recebido a bolsa em outro ano, a Tamani, me encorajou. Nos últimos dias fiz a inscrição e o teste de proficiência e fui aprovado”, explica o futuro jornalista.

De acordo com o ranking da Quacquarelli Symonds (QS), consultoria britânica em ensino superior,a Coréia do Sul ocupa a 10ª posição dentre 50 países consultados. A lista aponta que 40 das melhores universidades do mundo estão no país, sendo que 14 delas situadas na capital Seoul, centro econômico e principal destino dos estudantes. Além disso, a cidade abriga uma das maiores empresas de tecnologia e telefonia do mundo: a Samsung. Segundo Prass, a Coréia do Sul impressiona em todos os sentidos, mas um dos elementos culturais que mais o marcou foi justamente relativo à educação. “Os coreanos e asiáticos em geral levam a escola e as universidades muito a sério. É uma questão de honra para eles. Professores são tratados com extremo respeito e são consideradas autoridades quase tão importantes quanto os pais”, afirma o universitário.

A Coréia do Sul possui uma população de aproximadamente 10 milhões de habitantes, sendo, atualmente, um dos maiores produtores de tecnologia. De acordo com Prass, a visão sobre a educação reflete na sociedade coreana como um todo, levando o país ao desenvolvimento econômico. “A produção de valor no mercado é algo que eles prezam muito. Dois colegas da universidade e eu optamos pela hospedagem na casa de um coreano, o Lloyd, pelo Airbnb. Ele cresceu tanto na carreira que foi convidado a trabalhar nos Estados Unidos, justamente em função da seriedade que lida com o trabalho”, enfatiza o estudante gaúcho.

Durante seu intercâmbio acadêmico cultural, Prass pôde avaliar uma série de hábitos e pensou até mesmo em não retornar ao Brasil. “Estamos falando de um país com muita qualidade de vida, segurança e visível progresso, é natural querer se estabelecer em um ambiente como esse e construir uma vida”, explica.

Estudante Marco Prass em frente à Sungkyunkwan University. Crédito da foto: Arquivo Pessoal.

Entretanto, existem ainda muitos países que são descartados dos roteiros de intercambistas, seja pela burocracia de vistos e passaportes, ou até mesmo pela exigência de vacinas, como no caso da África do Sul. Outro fator determinante são os países considerados emergentes, com economia em desenvolvimento e política instável.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Egito, país situado no norte do continente africano, integra a lista de países subdesenvolvidos. Berço da civilização moderna, o Egito tem o turismo como principal fonte de renda e também já foi ocupado por assírios, persas, gregos, romanos, árabes, francês e britânicos. Hoje em dia é um dos lugares procurados por jovens que desejam trabalhar com projetos voluntários e, ao mesmo tempo, aprender o idioma árabe e a cultura local.

Foi o caso da estudante do quarto ano do curso de Direto da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Débora Souto Gastal, de 21 anos. Em 2014, ela foi para o Egito durante dois meses para realizar um trabalho social. A oportunidade surgiu quando resolveu procurar por agências de intercâmbio e descobriu que o Egito oferecia cinco vezes mais vagas do que os países europeus. Além disso, Débora queria fazer uma viagem para conhecer o extremo da realidade de um país. “Ao contrário dos demais intercambistas, optei por um trabalho voluntário e o fato de ser um país com tantos problemas econômicos, políticos e sociais me fez pensar que a minha ajuda ali seria mais produtiva do que se eu fosse para um país considerado de primeiro mundo”, explica a estudante.

Estudante Débora Souto Gastal na cidade do Cairo, no Egito. Crédito da foto: Arquivo Pessoal.

Mais do que um intercâmbio acadêmico cultural, o trabalho social no Egito possibilitou inúmeras experiências à Débora, como aprender a cozinhar e lavar roupa. “Desde criança ansiava por independência e a viagem fez com que eu lidasse com situações que antes não sabia que tinha capacidade. Sem dúvida você aprende na prática o significado da palavra resiliência e isso consequentemente reflete na vida profissional”, ressalta.

Entretanto, a fragilidade financeira e o sistema político ultrapassado acabam interferindo na vida da população, principais problemas que afetam o Egito atualmente. “O intercâmbio foi uma das minhas decisões mais inteligentes, porém é triste ver que o país tem inúmeras dificuldades sociais, o que me impede de querer construir uma vida lá, mesmo sendo um país extremamente lindo”, salienta Débora, que ainda diz ter criado uma grande afinidade com o continente africano logo após que pisou na pista do Aeroporto Internacional do Cairo.

Fonte: http://www.belta.org.br

Confira abaixo mais fotos das viagens:

Agências de intercâmbio oportunizam viagens para locais pouco procurados

A procura por países exóticos é grande por parte de um determinado público-alvo. De acordo com Josiane Silva, da CI Intercâmbio, quem mais procura por esse tipo de programa são pessoas que já fizeram viagens ao redor do mundo e que possuem interesse em fazer trabalhos voluntários, com foco nas áreas das humanidades e da saúde. “A procura por este tipo de programa é por parte de um público bem específico”, afirma.

Além disso, a agência, apesar de não ter como principal objetivo países pouco “comuns”, oferece programas de intercâmbio para o Sri Lanka, Tailândia e Índia.

Graduanda em Jornalismo - Unisinos | Redatora SEO | Assessora de Imprensa | Produtora de Conteúdo| Porto Alegre - RS

Graduanda em Jornalismo - Unisinos | Redatora SEO | Assessora de Imprensa | Produtora de Conteúdo| Porto Alegre - RS